Por Tayara Calina, responsável pela coordenação executiva do Fórum Inova Cidades pelo Instituto Arapyaú

Em novembro, estivemos em Barcelona, na Espanha, para apresentar o Fórum no maior evento de cidades inteligentes do mundo: o Smart City Expo World Congress (saiba mais sobre como foi essa experiência). Na semana em que participamos do congresso, tivemos contato com as mais diversas experiências de inovação municipal. Isso nos fez pensar em como o tema está sendo trabalhado no Brasil em relação aos outros países, e em como a inovação tem diferentes significados em cada lugar.

Na Índia, por exemplo, o governo tem focado em inovação para tratamento de esgoto. Isso porque é um país com mais de 1 bilhão de pessoas, grande parte vivendo em condições precárias. Já nas Ilhas Faroe, próximas ao pólo norte, com uma população de cerca de 50 mil habitantes, o governo quer se tornar 100% digital.

Enquanto em alguns países a inovação está ligada à IoT, ou Internet das Coisas, no Brasil, onde ainda discutimos a lei de antenas para possibilitar a implementação de 5G, essa realidade parece distante.

Mas isso não se trata de estatísticas populacionais, nem serve para criarmos uma hierarquia entre países mais e menos desenvolvidos, e sim para refletir: seria a ideia de inovação única para todos? Ou um meio (sem conteúdo específico) de tornar processos mais eficientes a partir de diferentes realidades locais? Nesse sentido, buscar a importação de modelos (especialmente tecnológicos) de outras cidades com outros desafios pode não ser o melhor caminho para inovar. Em vez disso, é importante identificar os desafios do seu município e elaborar maneiras novas de superá-lo.

Até que ponto podemos nos inspirar em Barcelona para inovar?

Ao acompanhar a missão técnica da FNP as experiências inovadoras de Barcelona, pudemos perceber isso. Foi muito relevante e enriquecedor aprender sobre os projetos da capital catalã como forma de inspiração. Mas as diferentes realidades impedem que o modelo seja simplesmente importado sem questionamentos e adaptações. 

Uma das razões de Barcelona poder focar na inovação, por exemplo, é o fato de saúde e educação, pastas básicas e onerosas para os municípios brasileiros, não serem de responsabilidade da prefeitura. Outra diferença é a desigualdade social, muito menor na Espanha, e que muda o que é prioridade de investimento nas cidades. 

Assim, há um contraste de agendas muito forte: enquanto discutimos nas grandes cidades brasileiras o uso do patinete como algo inovador na mobilidade, em Barcelona se debate uma cidade sem carros.

Da mesma forma, é importante entendermos que alguns desafios para inovar nos municípios são compartilhados. Mesmo Barcelona sendo um modelo, ainda enfrenta dificuldades semelhantes às prefeituras brasileiras: criar e analisar dados internamente para acompanhar processos, contratar e incorporar inovação, enfrentar burocracias que travam os projetos, deparar-se com falta de recursos.

O papel do governo está mudando

Outro ponto em comum entre diversos países presentes no Smart City Expo World Congress é a compreensão de que o papel do governo vem mudando. O poder público não é mais o único a dar soluções: agora ele precisa da participação dos cidadãos e da contribuição das empresas para funcionar de maneira mais eficiente.

Devemos, portanto, parar de buscar o Santo Graal da inovação: aquela uma coisa que vai transformar todas as cidades. Olhando para 2020, é importante pensar nos desafios da gestão pública entendendo a realidade e a dinâmica local, os obstáculos próprios do município, e a partir disso inovar sendo criativo na construção de soluções a partir de cada problema e não se encantando com a solução sem ter clareza se ela responde a um problema.

Queremos que as prefeituras contem com o Fórum Inova Cidades nesse processo. Para participarem como membros, conheçam os benefícios e preencham o formulário.

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