“Não adianta falar de inovação sem colocar recursos para fazer acontecer”, diz Cris Alessi sobre 2020

Em 2020, o Fórum Inova Cidades completa um ano de existência. Nessa entrevista com a presidente da rede, Cris Alessi, a especialista em inovação fala sobre perspectivas para o ano diante do atual cenário político e econômico brasileiro.

Quais são as ações que mais vão impactar as cidades em 2020?

As principais áreas que estão modelando a questão de tecnologia são a saúde, o agronegócio e o emprego, por conta do momento econômico do país, além da questão da conectividade. São áreas que vão impactar e nortear muito as discussões nos estados e municípios. Para isso é importante que as cidades se estruturem na sua base legal e econômica, com projetos concretos e consistentes na área de inovação. Nesse sentido, também é importante se aproximar de empresas de tecnologia e universidades para parcerias. Além disso, devem se estruturar de forma financeira, colocando recursos para a área de inovação, porque não adianta falar de inovação sem colocar recursos para fazer acontecer. Essas são frentes importantes que vão ditar campanhas de sucesso para 2020. 

Qual vai ser o maior desafio para fazer esse movimento?

Quando se fala de desenvolvimento econômico, se fala de empregabilidade. Estamos vendo um gap muito grande entre a formação na área de tecnologia e o mercado de trabalho. Apesar do Brasil estar com cerca de 12,5 milhões de desempregados, temos expectativas para que, até 2024, haja um apagão tecnológico, uma falta importante de mão de obra. É uma preocupação dos municípios a capacitação para a tecnologia. É comum pensar nesse sentido no ensino superior para as classes médias, mas também falo de empregos para dar acesso a públicos de baixa renda à capacitação tecnológica.


O Fórum é um espaço de discussão dessas e outras questões de inovação na gestão pública. Entre para a rede e também acompanhe os webinars gratuitos sobre temas essenciais para o setor

Quais são os planos para o Fórum em 2020?

A gente passou por um ano de definição de metas, organização de governança, e agora nosso principal desafio em 2020 é dar maior visibilidade ao Fórum para conseguir apoiar mais municípios, ampliar a rede. Queremos que essa ligação com outras entidades, como o governo federal e as empresas, possa chegar a todos os municípios interessados. E que a gente consiga instrumentalizar o Fórum para alcançar um número cada vez maior de cidades e apoiá-las com um número cada vez maior de projetos de inovação.

Primeiro ano do Fórum: o que fizemos em 2019 e o que vem por aí em 2020

Fazer uma retrospectiva da atuação do Fórum Inova Cidades em 2019 é falar sobre toda a sua história, que começou em fevereiro. Para nós, tem sido muito gratificante perceber que o Fórum é recebido de braços abertos por onde passa. Isso significa que, em um cenário nacional polarizado, a iniciativa tem conseguido manter sua pauta positiva e construir pontes que criam diálogo e superam as diferenças.

Este foi um ano para se conhecer e marcar nossa existência. A partir da parceria entre a Frente Nacional de Prefeitos e o Instituto Arapyaú, pudemos dar os primeiros passos e formar um time de peso para a governança. O engajamento e liderança desses secretários e gestores foram fundamentais para o avanço das pautas do Fórum.

Durante 2019, fizemos três encontros abertos a cidades de todo o país. Focamos em soluções práticas, troca de experiências e em como superar os desafios que impedem os municípios de inovar. No nosso último evento, por exemplo, discutimos a importância da lei de antenas para avançar com a tecnologia 5G, além de sugerir caminhos mais simples para contratações e fontes de recursos disponíveis para iniciativas de inovação.

Também estivemos presentes em eventos importantes da área, como a 5ª Semana de Inovação da Enap, em Brasília, e o Smart City Expo World Congress, em Barcelona (saiba como foi o evento e leia nosso balanço sobre inovação no mundo).

Articulação do Fórum com o governo federal em 2019

Nessa trajetória, entendemos que era fundamental apresentar o Fórum ao governo federal e articular seus programas com os municípios. A experiência foi muito positiva, e percebemos a importância de uma iniciativa como a nossa para sistematizar as oportunidades disponíveis, criar conexões e apontar caminhos para inovar na gestão pública.

Ainda recebemos em 2019 nosso primeiro aporte, resultado de uma parceria com a Aliança de Inovação – formada pelo Instituto Arapyaú, Instituto Humanize e a Fundação Brava – no valor de R$ 50 mil. Os recursos vão viabilizar a segunda fase do guia sobre leis de inovação municipal. 

Nossos planos para 2020

Nos aproximamos de 2020 com muitas expectativas e energia para crescer e nos estabelecer como representantes dos municípios brasileiros quando o assunto é inovação. Queremos consolidar parcerias e nosso lugar na arena. Como parte desse processo, também vamos sedimentar o Fórum como criador de conteúdo útil para as cidades, não apenas no site e redes sociais, como já vem fazendo, mas com o lançamento do manual para implementação de leis de inovação em cidades e a série mensal de webinars com especialistas. 

Além disso, fortaleceremos nossa voz junto ao governo federal, sedimentando o diálogo dos municípios nas pautas federativas. Nossas ações prioritárias serão compor as câmaras e instâncias consultivas, hubs de inovação e nos aprofundar no debate da lei de antenas.

Aproveitamos para convidar todos para nosso 4º encontro em março, que será realizado nos dias 26 e 27 em Curitiba (PR). E como o Fórum é feito pelas cidades e movido por seus desafios práticos, chamamos dirigentes de todo o Brasil para participar dessa construção em 2020

Se inovação não significa o mesmo para todas as cidades, como inovar?

Por Tayara Calina, responsável pela coordenação executiva do Fórum Inova Cidades pelo Instituto Arapyaú

Em novembro, estivemos em Barcelona, na Espanha, para apresentar o Fórum no maior evento de cidades inteligentes do mundo: o Smart City Expo World Congress (saiba mais sobre como foi essa experiência). Na semana em que participamos do congresso, tivemos contato com as mais diversas experiências de inovação municipal. Isso nos fez pensar em como o tema está sendo trabalhado no Brasil em relação aos outros países, e em como a inovação tem diferentes significados em cada lugar.

Na Índia, por exemplo, o governo tem focado em inovação para tratamento de esgoto. Isso porque é um país com mais de 1 bilhão de pessoas, grande parte vivendo em condições precárias. Já nas Ilhas Faroe, próximas ao pólo norte, com uma população de cerca de 50 mil habitantes, o governo quer se tornar 100% digital.

Enquanto em alguns países a inovação está ligada à IoT, ou Internet das Coisas, no Brasil, onde ainda discutimos a lei de antenas para possibilitar a implementação de 5G, essa realidade parece distante.

Mas isso não se trata de estatísticas populacionais, nem serve para criarmos uma hierarquia entre países mais e menos desenvolvidos, e sim para refletir: seria a ideia de inovação única para todos? Ou um meio (sem conteúdo específico) de tornar processos mais eficientes a partir de diferentes realidades locais? Nesse sentido, buscar a importação de modelos (especialmente tecnológicos) de outras cidades com outros desafios pode não ser o melhor caminho para inovar. Em vez disso, é importante identificar os desafios do seu município e elaborar maneiras novas de superá-lo.

Até que ponto podemos nos inspirar em Barcelona para inovar?

Ao acompanhar a missão técnica da FNP as experiências inovadoras de Barcelona, pudemos perceber isso. Foi muito relevante e enriquecedor aprender sobre os projetos da capital catalã como forma de inspiração. Mas as diferentes realidades impedem que o modelo seja simplesmente importado sem questionamentos e adaptações. 

Uma das razões de Barcelona poder focar na inovação, por exemplo, é o fato de saúde e educação, pastas básicas e onerosas para os municípios brasileiros, não serem de responsabilidade da prefeitura. Outra diferença é a desigualdade social, muito menor na Espanha, e que muda o que é prioridade de investimento nas cidades. 

Assim, há um contraste de agendas muito forte: enquanto discutimos nas grandes cidades brasileiras o uso do patinete como algo inovador na mobilidade, em Barcelona se debate uma cidade sem carros.

Da mesma forma, é importante entendermos que alguns desafios para inovar nos municípios são compartilhados. Mesmo Barcelona sendo um modelo, ainda enfrenta dificuldades semelhantes às prefeituras brasileiras: criar e analisar dados internamente para acompanhar processos, contratar e incorporar inovação, enfrentar burocracias que travam os projetos, deparar-se com falta de recursos.

O papel do governo está mudando

Outro ponto em comum entre diversos países presentes no Smart City Expo World Congress é a compreensão de que o papel do governo vem mudando. O poder público não é mais o único a dar soluções: agora ele precisa da participação dos cidadãos e da contribuição das empresas para funcionar de maneira mais eficiente.

Devemos, portanto, parar de buscar o Santo Graal da inovação: aquela uma coisa que vai transformar todas as cidades. Olhando para 2020, é importante pensar nos desafios da gestão pública entendendo a realidade e a dinâmica local, os obstáculos próprios do município, e a partir disso inovar sendo criativo na construção de soluções a partir de cada problema e não se encantando com a solução sem ter clareza se ela responde a um problema.

Queremos que as prefeituras contem com o Fórum Inova Cidades nesse processo. Para participarem como membros, conheçam os benefícios e preencham o formulário.