Com a pandemia do novo coronavírus, empregadores de todos os setores produtivos se viram obrigados a adotar às pressas o teletrabalho. O que pareceu apenas uma questão logística, no entanto, teve grandes impactos no setor público, revelando tanto obstáculos quanto ganhos de eficiência nos serviços prestados aos cidadãos. Esse foi o tema da mesa “Teletrabalho como inovação no setor público: aprendizados e desafios”, mediada pela presidente do Fórum, Cris Alessi, durante a Remote Conference 2020. “Muitas empresas têm buscado um formato híbrido de trabalho presencial e home office, mas ainda há pouca segurança jurídica para fazer isso”, diz Cris.

Durante o debate, a diretora de Gestão de Pessoas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ana Cláudia Mendonça, lembra que o trabalho remoto não é uma novidade na gestão pública, pois vem sendo implementado paulatinamente há cerca de 15 anos. Mesmo assim, as condições apresentadas pela pandemia fizeram com que gestores se deparassem com novas questões em torno do teletrabalho. “Esse período é um grande experimento para que no futuro a gente possa estabelecer com segurança jurídica como essas novas relações de trabalho serão instituídas”, observa a convidada Aleksandra Santos, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental no TRT 10ª Região. Reunimos abaixo 5 aprendizados e 5 desafios apresentados pelas debatedoras.

Desafios:

1. Entrega de resultados

Ana Cláudia aponta que, no trabalho presencial, existe a ilusão de que o funcionário que está diante do computador está trabalhando. E por isso a distância gera a sensação de falta de controle nas lideranças. Mas, segundo ela, isso é apenas um indicativo da necessidade de inovar o paradigma de trabalho. Em vez do controle de tempo de produção, difícil de medir no teletrabalho, é preciso cobrar entrega de resultados. “Essa é a maior dificuldade do serviço público, porque muitas vezes não se sabe quais são as entregas da área”, afirma Ana Cláudia. 

2. Infraestrutura urbana

Maria Alexandra Cunha, professora da FGV-EAESP e líder da área de Tecnologia e Governos do CEAPG-Centro de Estudos de Administração Pública e Governo, aponta a infraestrutura das cidades como um grande desafio para o teletrabalho. Isso porque ainda há conexões instáveis, áreas sem cobertura e serviços que não têm a qualidade necessária para trabalhar remotamente. 

3. Desigualdades digitais

“Imaginava-se antes que teríamos, com a tecnologia, uma ponte para acabar com as desigualdades, mas na verdade ela perpetuou as diferenças”, analisa Maria Alexandra. Ela pondera que pessoas que têm problemas de acesso, de competências e habilidades digitais e de tirar proveito do teletrabalho para a sua vida acabam sendo prejudicadas pelo formato remoto de trabalho. “Quando pensamos na desigualdade digital é importante lembrar que, no Brasil, homens têm mais acesso do que mulheres, brancos do que negros, quem está no centro mais do que quem está na periferia, jovens mais que idosos”, afirma a professora. Essas dificuldades também se apresentam no trabalho no setor público e na prestação de serviços ao cidadão. “Se temos essa desigualdade no território, não podemos tratar todo mundo como digital by default [digital como padrão]. Afinal, um quarto da população brasileira jamais acessa a internet.” 

4. Saúde do funcionário público

“No começo da pandemia, fizemos uma pesquisa de qualidade da vida no teletrabalho [TRT 10ª Região], e percebemos uma sobrecarga mental e profissional muito grande”, relata Aleksandra Santos. Ela chama a atenção para condições de trabalho muitas vezes inadequadas em casa, o que indica que as lideranças deverão lidar, no médio e longo prazo, com problemas de saúde dos funcionários relacionados a isso.

5. Sobrecarga feminina

Aleksandra observa, também, que o isolamento social tornou a sobrecarga feminina mais aguda, considerando que a mulher muitas vezes assume a tarefa de trabalhar e cuidar da casa e dos filhos, sem escola durante a pandemia, simultaneamente. Isso pode interferir na saúde mental da mulher e na entrega de resultados no trabalho. “Precisamos de uma gestão mais sensível a isso”, observa. O compartilhamento das tarefas domésticas, incluindo o tempo dedicado às crianças, reduziria essa sobrecarga sobre as mulheres.

Aprendizados:

1. Agilização e facilitação de processos

“No teletrabalho, é preciso valorizar as entregas que vão gerar valor para a sociedade”, observa Ana Cláudia. “Na pandemia, para pegar um reembolso no tribunal o cidadão precisava entregar os comprovantes presencialmente. Hoje pode ser por e-mail. Começamos a ter um pensamento mais ágil, centrado no cidadão, de entregar serviços com valor.”

2. Aquisição de talentos

Segundo Ana Cláudia, o teletrabalho amplia as possibilidades de contratação, já que os candidatos a uma vaga não precisam trabalhar próximos ao trabalho, podendo estar em outro município, estado e até país. “Para trabalhar no TSE não precisa mais morar em Brasília, por exemplo.”

3. Aproximação com a população

As possibilidades virtuais de interação dos gestores públicos com o cidadão, por exemplo em lives e webinars, aproxima o setor da população, já que pessoas se conectam com pessoas. Assim, o cidadão pode compreender melhor as dores e os avanços do setor público em relação aos serviços prestados assistindo de onde estiver a eventos feitos por gestores da área.

4. Saber que é possível fazer

Maria Alexandra, da FGV-EAESP, lembra que diversas inovações em governo eram obstaculizadas antes do teletrabalho, e que foram facilitadas diante da emergência apresentada pela pandemia. “De repente mudamos a lei e todos foram para casa trabalhar, e um monte de coisas que não podíamos fazer agora se pode fazer, porque o serviço público se adequou. Essa é uma potencialidade que experimentamos: podemos fazer”, afirma.

5. Melhorar o atendimento

“Quando pensamos no atendimento ao cidadão, temos que eliminar o contato com tudo o que é inútil, como pedir certidões que o governo já tem, por exemplo”, diz Maria Alexandra. “Isso é um aprendizado grande que a pandemia nos traz: as pessoas precisam ser bem atendidas. Teremos depois disso um atendimento com mais tecnologia, mais eficiente.”

Assista à gravação completa do evento.

Também durante a Remote Conference, o vice-presidente de governança e planejamento do Fórum, Marcus Rocha, que é superintendente de Ciência, Tecnologia e Inovação de Florianópolis, ministrou a palestra “O futuro do trabalho no Ecossistema e na Rede Municipal de Centros de Inovação de Florianópolis”, que você pode assistir aqui.

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